quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Santo Ambrósio


    Um dos quatro Doutores Máximos da Igreja, Bispo de Milão, foi o pai espiritual de três imperadores romanos: Graciano, Valentiniano II e Teodósio I. Foi também quem converteu e batizou Santo Agostinho, em 387.
    Era gaulês, descendente de gregos, nascido em Trier, atual Alemanha, em 339. Seu pai era de família nobre em Roma, alto funcionário do império, e acabou indicado por Constantino I para a prefeitura da província romana da Gália, área hoje pertencente à França, mas morreu logo após seu nascimento.
    Foi quando sua mãe voltou a Roma, onde ele recebeu a melhor instrução escolar da época, incluindo, além de gramática e literatura, direito, retórica, teatro e circo. Recebeu valiosíssimas instruções do inspirado sacerdote Simpliciano, que, conforme Santo Agostinho, tornou-se o pai de Santo Ambrósio 'segundo a Graça'.
    Advogado da prefeitura de Milão, que então só era menos importante que Roma, foi nomeado conselheiro do pretório, em 370, e cônsul de uma província vizinha. Com a morte de Auxêncio, bispo ariano, portanto herético, Santo Ambrósio teve que presenciar a eleição do novo bispo na qualidade de prefeito de polícia, cuja obrigação era manter a ordem. Mas com tanta Sabedoria fez algumas interferências que mesmos opositores uniram-se para elegê-lo bispo. Por humildade quis recusar, pois apenas recentemente tinha-se deixado converter ao cristianismo e ainda estava na preparação para o Batismo. Sensível, porém, acabou aceitando sem precisar ouvir muitos argumentos: percebeu que aquela era a vontade de Deus. Tinha 40 anos.
    Buscou mais uma vez a direção espiritual de Simpliciano e aprofundou-se nos estudos da Bíblia. Leu tudo que havia dos seus predecessores, entre Santos, papas, bispos e os Padres da Igreja. Aprendeu inclusive de Orígenes, mas era muito lúcido e não se deixou enganar por seu gnosticismo nem em outras heresias.
    Por tanta erudição, seus sermões impressionaram o genial Santo Agostinho, que, dirigindo-se a Deus, escreveu: "Assim que cheguei a Milão, encontrei o bispo Ambrósio, conhecido no mundo inteiro como um dos melhores, e Teu fiel servidor. Suas palavras ministravam constantemente ao povo a substância do Teu trigo, a alegria do Teu óleo e a embriaguez sóbria do Teu vinho. (...) Comecei a estimá-lo, a princípio, não como mestre da Verdade (...), mas como homem bondoso para comigo. Acompanhava assiduamente suas conversas com o povo, não com a intenção que deveria ter, mas para averiguar se sua eloquência merecia a fama de que gozava, se era superior ou inferior à sua reputação. Suas palavras prendiam-me a atenção. (...) Eu encantava-me com a suavidade de seu modo de discursar; era mais profundo, embora menos jocoso e agradável do que o de Fausto quanto à forma."
    O imperador Teodósio I instalou-se em Milão no ano de 381, onde pôde estreitar relações com Santo Ambrósio, que à época já fundava novas dioceses e ordenava muitos bispos. Mas tal amizade não significa que ele tenha-se submetido aos poderes do imperador. Tanto que, quando este ordenou o massacre de Tessalônica, foi publicamente repreendido por Santo Ambrósio que o acusou de crueldade, proibiu-lhe de participar da Santa Missa que celebrava e exigiu que ele se arrependesse e fizesse penitência.
    Indignado, o imperador tentou entrar à força na igreja com toda sua corte, mas Santo Ambrósio resistiu: "Não ousaria, em sua presença, oferecer o Divino Sacrifício." Teodósio lembrou-lhe o que fez o rei Davi com os pães da proposição, mas o bispo de Milão perguntou-lhe se aquela boca que deu ordens para massacrar era digna da Hóstia Consagrada. E pediu que ele imitasse Davi não só na transgressão, mas também nas penitências. No Natal de 390, finalmente, Teodósio compareceu à igreja para confessar-se e cumprir suas penitências.


    Fez também oposição a imperatriz Justina e a seu filho Valentiniano II, que queriam fundar uma igreja para os arianos, e com argumentos simples e claros convenceu-os que isso não passava de heresia. Opôs-se também e venceu o prefeito de Roma, além do aclamado senado romano, quando tentaram reintroduzir a estátua de uma deusa pagã, Vitória, na sala de sessões.
    Quando Graciano assumiu o Império, pediu a Santo Ambrósio que lhe explicasse a divindade de Jesus, pois seu tio, Valentiniano, era ariano. Santo Ambrósio respondeu-lhe escrevendo um tratado de 5 volumes, onde lhe apresenta todos os subsídios para uma completa visão da fé cristã. Escreveu-lhe mais tarde um tratado sobre o Espírito Santo, provavelmente antecipando-se ao macedonismo, outro movimento herético. Nesse documento contribuiu decisivamente para a compreensão da essência do Divino Paráclito, idêntica à do Pai e à do Filho, e para formular o conceito da Santíssima Trindade.
    Conhecedor dos filósofos gregos, dispôs a Santo Agostinho muitos dos termos que ele iria usar para formular sua rica abordagem filosófica e teológica do cristianismo, que o fez Doutor da Igreja. Foi Santo Ambrósio também que usou pela primeira vez os termos que explicavam as naturezas simultaneamente humana e divina de Jesus, e que seriam confirmados pelos Concílios de Éfeso, em 431, e Calcedônia, em 451.


    É frequentemente citado pelos papas, como fez o venerável Pio XII na Encíclica 'Sacra Virginitas' de 1954, assim como o beato Paulo VI na Exortação Apostólica 'O Culto à Virgem Maria', em 1973, e na Constituição Apostólica 'Paenitemini', em 1966. Seus argumentos foram usados também na Constituição Pastoral da Igreja do Concílio Vaticano II, a 'Gaudium et Spes', e nas Constituições Dogmáticas 'Dei Verbum' e 'Lumem Gentium'.
    Deixou ainda mais de 90 cartas, vários hinos, melodia para Salmos e antífonas. Criou o Metro Ambrosiano, que emprega 8 estrofes de 4 linhas e pode ser adaptado em vários momentos das celebrações. Compôs várias exegeses e obras dogmáticas, mas também outras de cunho moral e ascética. A ele é atribuído o Rito Ambrosiano, ainda celebrado nas Santas Missas da Arquidiocese de Milão.
    Aos 67 anos, pouco antes de falecer, indicou Simpliciano para seu sucessor no bispado de Milão, e justificou a decisão com sua costumeira serenidade: "É velho, mas é bom."
    Deram-lhe o título de 'Apóstolo da amizade'.


    A Basílica de Milão, uma das mais antigas da cidade, inicialmente chamada Basílica do Martírio e que passou a levar seu nome, foi construída por ele, numa área onde muitos cristãos foram martirizados durantes as perseguições romanas. Seu corpo encontra-se exposto na cripta, junto ao de São Gervásio.


    Santo Ambrósio, rogai por nós!