domingo, 16 de julho de 2017

Nossa Senhora do Carmo


    A Montanha ou o Monte do Carmo, ou do Carmelo, foi onde Elias, o grande profeta de Israel, desafiou os profetas dos falsos deuses e impôs-lhes fragorosa derrota. E desafiou não só a eles, mas também Acab, o rei de Israel, e Jezabel, sua esposa, que haviam abraçado heresias: "Ao vê-lo, Acab lhe disse: 'Eis-te aqui, o perturbador de Israel!' 'Não sou eu o perturbador de Israel', respondeu Elias, 'mas tu, sim, e a casa de teu pai, porque abandonastes os preceitos do Senhor e tu seguiste aos Baal. Convoca, pois, à Montanha do Carmelo, junto de mim, todo o Israel com os quatrocentos e cinquenta profetas de Baal e os quatrocentos profetas de Asera, que comem à mesa de Jezabel.'" 1 Rs 18,19
    Foi lá, nesta mesma ocasião, que Javé, invocado por Elias, a todos os presentes revelou-Se o verdadeiro Deus: "Então Javé mandou um raio que consumiu a vítima, a lenha, as pedras e as cinzas, e secou a água que estava no rego. O povo viu tudo isso e prostrou-se no chão, exclamando: 'Javé é o Deus verdadeiro! Javé é o Deus verdadeiro!'" 1 Rs 18,38-39
    E após Elias ser arrebatado aos Céus, Eliseu, seu discípulo, continuou a fazer nele seus retiros, como fez ao passar realizando prodígios por Jericó e Betel: "Dali se retirou para o Monte Carmelo..." 2 Rs 2,25
    Ele chegou a morar lá, onde uma mãe desesperada foi pedir pela ressurreição de seu filho e assim acabou atendida: "Chamou o marido e disse-lhe: 'Manda comigo um escravo e uma jumenta, para que eu vá à casa do homem de Deus e volte.' Ela partiu e chegou aonde estava o homem de Deus, no Monte Carmelo." 2 Rs 4,22.25


    Assim o Monte Carmelo tornou-se lugar sagrado para os judeus desde os tempos de Elias, e em especial porque os religiosos aguardavam sua volta, que se daria antes da vinda do Messias, como Deus havia através do profeta Malaquias: "Eis que vou enviar-vos o profeta Elias, antes de chegar o grandioso e terrível Dia de Javé." Ml 3,23
    Essa profecia cumpriu-se na pessoa de São João Batista, como disse Jesus: "Porque os profetas e a Lei tiveram a Palavra até João. E, se quereis compreender, ele é o Elias que devia voltar." Mt 11,13-14
    Detalhe importante, pois acena para a Vida Eterna, é que Elias não morreu. Foi arrebatado aos Céus quando estava às margens do Jordão, após uma miraculosa travessia que lembra Moisés e o povo de Israel passando pelo Mar Vermelho: "... Elias e Eliseu detinham-se à beira do Jordão. Elias tomou o seu manto, dobrou-o e feriu com ele as águas, que se separaram para as duas bandas, de modo que atravessaram ambos a pé enxuto. Continuando o seu caminho, entretidos a conversar, eis que de repente um carro de fogo com cavalos de fogo separou-os um do outro, e Elias subiu ao Céu num turbilhão." 2 Rs 2,7-8.11
    Não por acaso, o local dos batismos realizados por São João Batista era exatamente às margens do rio Jordão: "Confessavam seus pecados e eram batizados por ele nas águas do Jordão." Mt 3,6
    E, mesmo com o Advento do Cristo, as práticas religiosas no Carmelo não pararam. Eremitas e monges contemplativos cristãos continuaram a buscá-lo como um local sagrado. Muitos teriam vivido aí por toda a vida, habitando em cavernas. Ainda hoje há uma delas à qual é atribuída o local de retiro de Elias, o que é bastante provável tanto pela veneração ao profeta, cultuada através dos séculos, como por esta ter sido uma de suas práticas. De fato, há registro de que ele tenha-se refugiado por uns tempos numa caverna no Horeb, outro monte sagrado: "Chegando ali, passou a noite numa caverna. Então a Palavra do Senhor foi-lhe dirigida: 'Que fazes aqui, Elias?'" 1 Rs 19,9


    Segundo um antigo livro carmelita, a pequena nuvem vista pelo servo de Elias, que, como ele havia profetizado, acabaria com os anos de seca, é uma prefigura da Santíssima Virgem, aquela que traria a Salvação à humanidade: Jesus, definitivo saciador de toda sede de justiça. De fato, de sua humilde pequenez nasceu o Cristo: "E Maria disse: 'Minha alma glorifica ao Senhor, meu espírito exulta de alegria em Deus, Meu Salvador, porque olhou para sua pobre serva. Por isto, desde agora, todas as gerações irão proclamar-me bem-aventurada, porque realizou em mim maravilhas Aquele que é poderoso e Cujo Nome é Santo.'" Lc 1,46-49
    Diz a passagem que cita esta nuvem: "Na sétima vez o servo respondeu: 'Eis que sobe do mar uma pequena nuvem, do tamanho da palma da mão.' Elias disse-lhe: 'Vai dizer a Acab que prepare o seu carro e desça, para que a chuva não o detenha.'" 1 Rs 18,44
    Há também relatos de que, no ano de 93 da nossa era, foi erigido sobre o Monte um oratório a Maria. Tal fato encaixa-se perfeitamente com a situação dos cristãos na região, pois por volta do ano de 70 Jerusalém foi destruída pelos romanos. Certamente tal oratório foi levantado por eremitas que já tinham conhecimento da Assunção e da Coroação de Nossa Senhora, a Verdadeira Arca da Aliança como São João Evangelista descreveu no Apocalipse: "Abriu-se o Templo de Deus no Céu e apareceu, no Seu Templo, a Arca do Seu Testamento. Houve relâmpagos, vozes, trovões, terremotos e forte saraiva. Apareceu em seguida um grande sinal no Céu: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas." Ap 11,19;12,1
    Mas só com o constante fluxo de peregrinação de europeus à Terra Santa, manifestação religiosa que maldosamente foi generalizada como sendo Cruzadas, alguns monges, em específico no século XI, resolveram estabelecer aí uma construção mais sólida para servir-lhes de convento; eram as primícias do Mosteiro Stella Maris. Apesar das frequentes batalhas que se deram por estas terras, isso foi possível porque o Carmelo fica à margem do Mar Mediterrâneo, perto do porto da atual Haifa, antiga Porfiria. E são desses séculos as informações mais concretas e precisas dos costumes Carmelitas.


    É em 1209 que Santo Alberto, Bispo de Jerusalém, grande pacificador de vários conflitos internacionais, escreve a Regra do Carmo, também chamada de Regra Albertina. Em 1226 Papa Honório III dá sua aprovação, mas, após algumas relevantes questões canônicas, só com o Papa Inocêncio IV, em 1252, sai a definitiva aprovação. Nascia assim a Ordem do Carmo.
    No final do século XIII, porém, com a disseminação das invasões muçulmanas na região, em grande parte insufladas por guerreiros que perderam dominações para o Império de Gengis Khan, a Ordem vê-se obrigada a migrar para a Europa após o assassinato de alguns monges carmelitas junto à fonte de Elias, local que ficou conhecido como o Vale dos Mártires.


    Contudo, em 1213 a Ordem já havia chegado à longínqua Inglaterra, pois como iria confirmar um capítulo realizado em 1237, a maior parte dos monges decidiu deixar o Monte Carmelo por conta destas frequentes hostilidades.
    Lá entre os ingleses, no condado de Kent havia quase vinte anos um eremita morava num tronco seco de carvalho. E ao ouvir falar da recém-chegada Ordem Carmelita, e da devoção por Nossa Senhora, ele pediu para ingressar como noviço. Por suas tão intensas práticas espirituais, já em 1215 ele foi eleito Coadjutor Geral da Ordem. É nessa condição que São Simão Stock vai a Roma e consegue do Papa Honório III a primeira aprovação da Ordem, e em 1245 é eleito Superior Geral.
    Mas a Ordem Carmelitana não tinha descanso. Sofria virulentos ataques, de dentro e de fora da Igreja, que tinham a declarada intenção de anular a aprovação do Papa. A solução de que São Simão dispunha era rezar fervorosamente a Nossa Senhora, implorando-lhe intercessão. Foi quando em 16 de julho de 1251 teve uma esplendorosa visão: ela apareceu-lhe com o Menino Jesus no braço, entregou-lhe um Escapulário e disse: "Filho diletíssimo, recebe o Escapulário da tua Ordem, sinal especial de minha fraterna amizade, privilégio para ti e todos os carmelitas. Aqueles que morrerem com este Escapulário não padecerão o fogo do inferno. É sinal de Salvação, amparo e proteção nos perigos, e aliança de Paz para sempre."


    Outro sinal muito expressivo, que demonstra a perfeita coerência das mensagens, e assim a veracidade de suas aparições, é o fato de Nossa Senhora ter-se apresentado precisamente como essa mesma imagem na última e mais importante Aparição de Fátima, e ainda na Aparição de Cimbres, quando veio pedir penitência e conversão no Brasil.
    A palavra escapulário vem de escápula, ou omoplata. É uma longa vestimenta de tecido, aberta dos lados e que recobre as costas, os ombros e o peito, como usam os carmelitas. Mas, como símbolo, ele foi simplificado na forma de dois colares: um com a imagem de Nossa Senhora com o Menino Jesus no braço e outra com a imagem do Sagrado Coração de Jesus. Ou ainda, como foi autorizada pelo Papa São Pio X, na forma de uma medalha, com as mesmas imagens, uma em cada lado. Lembra-se, porém, um detalhe de suma importância para a obtenção da promessa: além do fiel precisar estar em dia com os Sacramentos, o escapulário deve ser bento por um sacerdote.
    Essa simples e especial devoção assegura-nos também o 'Privilégio Sabatino', que consiste noutra promessa feita por Nossa Senhora, agora em aparição ao Papa João XXII, garantindo que quem usasse o Escapulário, e estivesse sob a Graça de todos os Sacramentos, caso tivesse algum pecado a ser depurado no Purgatório, de lá seria por ela resgatado já no primeiro sábado após a morte.


    Só podemos agradecer a Santíssima Mãe por sua intercessão de tamanha Graça. Com tão singelo instrumento, ela vem livrar-nos não só do inferno, mas também de um período maior que uma semana nos sofrimentos do Purgatório. É muito amor por tão pequeno esforço. Sem dúvida, Maria é o maior reflexo de Deus, e o mais claro sinal de Sua bondade.

    Nossa Senhora do Carmo, rogai por nós!