domingo, 27 de novembro de 2016

A Aparição de Paris


    Em Paris, uma noviça da Companhia Filhas da Caridade, fundada por São Vicente de Paulo, foi despertada na noite da festa deste Santo, em 19 de Julho de 1830, por uma voz infantil que lhe chamava à capela do convento, pois lá Nossa Senhora estava à sua espera. A princípio, ela teve medo de desobedecer as regras de sua ordem, mas a voz garantiu-lhe que estavam todas dormindo.
    Ela acreditou porque, enquanto comemoravam o dia de São Vicente, havia poucas horas, a Madre Superiora pregou sobre sua vida e distribuiu a cada uma delas um pequeno pedaço do sobrepeliz que ele usava. Santa Catarina Labouré recebeu seu fragmento com muita devoção e logo pediu a intercessão deste Santo para que pudesse ver Nossa Senhora, pois sempre foi a maior vontade de toda sua vida. E ao fazer essa oração teve a nítida sensação de que seu desejo se realizaria naquela noite.
    Embalada por essa mesma sensação, ela foi à capela, que encontrou inexplicavelmente aberta e iluminada. Ao ajoelhar-se junto ao Altar, viu Nossa Senhora envolta em Luz, sentada na cadeira da Madre Superiora. Uma voz disse-lhe: "A Santíssima Maria deseja falar-te." Ela aproximou-se, ajoelhou-se aos seus pés e colocou as mãos em seu colo. Disse-lhe então a Mãe do Céu: "Deus deseja te encarregar de uma missão. Tu encontrarás oposição, mas não temas, terás a Graça de poder fazer todo o necessário. Conta tudo a teu confessor. Os tempos estão difíceis para a França e para o mundo. Vai ao pé do Altar, Graças serão derramadas sobre todos, grandes e pequenos, e especialmente sobre os que as buscarem. Terás a proteção de Deus e de São Vicente, e meus olhos estarão sempre sobre ti. Haverá muitas perseguições, a Cruz será tratada com desprezo, será derrubada e o sangue correrá."
    Santa Catarina não comentou com ninguém sobre essa aparição até o dia 27 de novembro do mesmo ano, quando foi à capela para as orações de vésperas e mais uma vez viu Nossa Senhora sobre o Altar, tal qual a imagem acima, rodeada por uma frase que dizia: "Oh Maria, concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós." Foi quando ela lhe deu essas instruções: "Faz cunhar uma medalha onde apareça minha imagem como a vês agora. Todos os que a usarem receberão grandes Graças." Depois, voltando-lhe as costas, fez com que ela visse como seria o desenho no verso da medalha, hoje mundialmente conhecida.


    Era o M de Maria, a Cruz sobre o Monte Calvário, 12 estrelas que simbolizam as tribos de Israel e os Apóstolos, o Sagrado Coração de Jesus cercado de espinhos, cuja devoção o Senhor prometeu a Graça da Vida Eterna a Santa Margarida Maria Alacoque, em 1675, e, ao lado, o Imaculado Coração de Maria, traspassado pela espada como havia previsto o profeta Simeão no Templo de Jerusalém, quando da Apresentação do Menino Jesus.
    Sem saber como poderia realizar tal tarefa, Santa Catarina perguntou a Nossa Senhora, que simplesmente indicou-lhe que procurasse seu confessor, o padre Jean Marie Aladel. De fato, ele escutou com carinho todos esses relatos, mas pediu que Santa Catarina guardasse tudo em silêncio. Só dois anos depois, após examinar com cuidado o comportamento daquela humilde freira, ele foi ao Arcebispo de Paris, Dom Quelen, que autorizou a cunhagem inicial de 2 mil medalhas, realizada em 20 de junho de 1832. Em paralelo, este bispo instaurou um inquérito para acompanhar os resultados obtidos pelos fiéis que a usavam, e sua conclusão foi essa: "A rápida propagação, o grande número de medalhas cunhadas e distribuídas, os admiráveis benefícios e Graças singulares obtidos, parecem sinais do Céu que confirmam a realidade das aparições, a verdade das narrativas da vidente e a difusão da Medalha."
    Os dizeres na medalha, '... concebida sem pecado...', confirmavam uma devoção que já existia havia muito tempo. Com efeito, desde 1476, o Papa Sisto IV tinha declarado o dia 8 de dezembro como festa universal da Imaculada Conceição. Entretanto, só na mesma data no ano de 1854, ou seja, mais de 20 anos depois da aparição a Santa Catarina, o Papa Pio IX declarou solenemente esse Dogma de , em sua bula 'Ineffabilis Deus'.
    A origem dessa fé, no entanto, remonta a passagem do Evangelho de São Lucas, quando o Arcanjo São Gabriel saudou Nossa Senhora: "Ave, agraciada..." Lc 1,28
    O livro de Jó, meditando sobre a origem do ser humano, deu-nos uma pista sobre a gestação de Jesus, que não poderia nascer de uma mulher impura: "Quem fará sair o puro do impuro?" Jó 14,4
    Isso apenas corrobora o valor que Deus dá à castidade, da qual nasceu Seu Filho segundo uma profecia: "Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: uma virgem conceberá e dará à luz um Filho, e O chamará Deus Conosco." Is 7,14
    Diz respeito também a Palavra de Deus, no Antigo Testamento, quando Ele disse à Serpente: "Porei ódio entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela." Gn 3,15
    Realmente, o inimigo vai perseguir Nossa Senhora. Mas como um anjo, que segundo Jesus "não se casarão nem se darão em casamento" (cf. Mc 12,25), ela voou para seu retiro. É quando o maligno passa a perseguir seus filhos, 'sua descendência', vale dizer, a Igreja: "O Dragão, vendo que fora precipitado na terra, perseguiu a Mulher que dera à luz o Menino. Mas à Mulher foram dadas duas asas de grande águia, a fim de voar para o deserto, para o lugar de seu retiro, onde é alimentada por um tempo, dois tempos e a metade de um tempo, fora do alcance da cabeça da Serpente. Este, então, se irritou contra a Mulher e foi fazer guerra ao resto de sua descendência, aos que guardam os Mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus." Ap 12,13-14.17
    A Sagrada Devoção ao Imaculado Coração de Maria foi confirmada pela própria Santíssima Virgem, na Aparição de Lourdes, em 1858, quando ela apresentou-se como a 'Imaculada Conceição' a uma jovem e humilde camponesa, Santa Bernadete de Lourdes, que sequer conhecia esse Dogma. Também na Aparição de Fátima, em 1917, aliás, em conformidade com a Aparição de Quito, no remoto ano de 1594, ela prometeu que, após grandes heresias e tribulações, seu Sagrado Coração triunfaria. Por fim, na Aparição de Cimbres, ela apresentou-se com o singelo nome de 'a Graça', inequívoca menção ao título de Nossa Senhora da Graça, no singular, como é chamada em Portugal.
    Santa Catarina Labouré faleceu em 1876, aos 70 anos. Em 1933, quando exumado, seu corpo estava intacto como se vê até hoje. Assim como as relíquias de Santa Luísa de Marilac, ele está exposto ao lado do altar da capela do convento onde se deu a Aparição da Santíssima Virgem, que passou a chamar-se Capela de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa.


    Nossa Senhora das Graças, rogai por nós!