sábado, 5 de novembro de 2016

As Imagens


    Assim como precisamos de símbolos e metáforas comunicar os valores que são difíceis de exprimir, usamos também das imagens para representar o que vemos ou imaginamos. Assim, as imagens de Jesus, de Maria e dos Santos mais antigos são retratos falados, que a Tradição da Igreja guardou, ou de visões. E, seja como símbolo ou representação da realidade, não é difícil imaginar a importância que através dos tempos tem a imagem do Cristo crucificado, tanto para as pessoas iletradas como letradas.
    Ora, Jesus bem sabia que Seu rosto seria desenhado, pintado e esculpido. Era simplesmente humano que isso acontecesse, e Ele nunca o proibiu.
    Que mal haveria nelas, afinal? Imagens de Jesus ou de Santos nunca foram colocadas no lugar de Deus, como fizeram os israelitas com o bezerro de ouro. Elas são o que são: imagens. A palavra 'ídolo', em grego, quer dizer 'falso deus'. Idolatria, portanto, é adorar um falso deus. Na Igreja, além de não as adorar, não temos imagens de falsos deuses, mas de santos verdadeiramente santos, e como meras imagens elas são tratadas, mesmo quando as veneramos.
    É fato que nos primórdios Deus proibiu o uso de imagens, mas o fez claramente para vedar qualquer culto a outros deuses que não Ele mesmo, como acontecia na época do paganismo. Ou seja, Ele não quer que nada ocupe Seu lugar. A condição de Deus é só e exclusivamente d'Ele, e por isso nos determinou: "Não terás outros deuses diante de Minha face. Não farás para ti escultura, nem figura alguma do que está em cima, nos Céus, ou embaixo, sobre a terra, ou nas águas, debaixo da terra. Não te prostrarás diante delas e não lhes prestarás culto." Ex 20,3-5a
    Esse mesmo preceito de exclusividade está expresso nesses termos: "Ouve, ó Israel! O Senhor, Nosso Deus, é o único Senhor. Amarás o Senhor, Teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças." Dt 6,4-5
    Uma imagem, portanto, só representa um mal quando é tratada como o próprio Deus, posta em Seu lugar. Se a imagem representasse um mal em si mesma, Ele não teria ordenado a confecção de querubins para a Arca da Aliança, como vemos no livro do Êxodo: "Farás dois querubins de ouro; e os farás de ouro batido, nas duas extremidades da tampa, um de um lado e outro de outro, fixando-os de modo a formar uma só peça com as extremidades da tampa. Terão esses querubins suas asas estendidas para o alto, e protegerão com elas a tampa, sobre a qual terão a face inclinada." Ex 25,18-20
    Por isso São Paulo denuncia as coisas que verdadeiramente são colocadas no lugar de Deus, deixando claro o que de fato é a idolatria, essa corrupção encravada na alma e que é larga e abertamente cultuada pelo mundo afora. E, como definitiva solução, ele recomenda as penitências: "Mortificai, pois, os vossos membros no que têm de terreno: a devassidão, a impureza, as paixões, os maus desejos, a cobiça, que é idolatria." Cl 3,5
    Lembrando os castigos sofridos pelo povo de Deus, enquanto cruzava o deserto, o Apóstolo dos Gentios vê idolatria essencialmente na ambição e na busca de prazeres mundanos, frívolas ilusões a que se entregam até mesmo muitos que se dizem religiosos: "Estas coisas aconteceram para nos servir de exemplo, a fim de não cobiçarmos coisas más, como eles as cobiçaram. Não vos torneis idólatras, como alguns deles, conforme está escrito: 'O povo sentou-se para comer e para beber, e depois levantou-se para se divertir (Ex 32,6).' Nem nos entreguemos à fornicação como alguns deles se entregaram... " 1 Cor 10,6-8a
    E na Carta a São Timóteo, ele vai ser ainda mais claro: "Porque a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro. Acossados pela cobiça, alguns se desviaram da e se enredaram em muitas aflições." 1 Tm 6,10


    Quanto às imagens de Jesus, especificamente, devemos ter presente que Ele é a plena manifestação de Deus, Revelação que vai muito além das palavras que a descrevem. Afirmativamente, Ele é o próprio Deus em Pessoa, dando-Se a conhecer à humanidade, e não apenas uma representação de Deus Pai. Temos, assim, baseado em relatos das pessoas que O viram, a real e fidedigna imagem de Deus, e não de ‘outros deuses’ como proíbe o primeiro Mandamento. Ele mesmo disse a São Filipe Apóstolo: "Há tanto tempo que estou convosco e não Me conheceste, Filipe! Aquele que Me viu, viu também o Pai. Como, pois, dizes: Mostra-nos o Pai?..." Jo 14,9
    Falando sobre Sua condição divina, São Paulo foi ainda mais direto: "... Jesus é o Senhor..." Rm 10,9
    Portanto, para os que realmente creem em Jesus, Deus revelou-Se à humanidade, o véu já foi retirado. Dizem os seguidores da tradição de São Paulo: "Por esse motivo, irmãos, temos ampla confiança de poder entrar no santuário eterno, em virtude do Sangue de Jesus, pelo caminho novo e vivo que nos abriu através do véu, isto é, o caminho de Seu próprio Corpo." Hb 10,19-20
    De fato, São Mateus até registrou em seu Evangelho, no momento da morte de Jesus na Cruz: "Jesus de novo lançou um grande brado, e entregou a alma. E eis que o véu do Templo se rasgou em duas partes de alto a baixo, a terra tremeu, fenderam-se as rochas." Mt 2,50-51
    E é Palavra Sua: "Quando tiverdes levantado o Filho do Homem, então conhecereis Quem EU SOU..." Jo 8,28a
    O próprio São Paulo diz com todas as letras: "Pois n'Ele habita corporalmente toda a plenitude da divindade." Cl 2,9
    Sem dúvida, a imagem do Cristo é Deus revelado e modelo nosso, na qual todos os cristãos devemos nos tornar. É sempre bom que lembremos: nós fomos feitos à imagem de Deus! E através da prática da obediência a Ele, como disse São Paulo aos coríntios, recuperaremos cada vez mais Sua semelhança, perdida pelo pecado: "Mas todos nós temos o rosto descoberto, refletimos como num espelho a Glória do Senhor e nos vemos transformados nesta mesma imagem, sempre mais resplandecentes, pela ação do Espírito do Senhor." 2 Cor 3,18
    Assim sua imagem serve de inspiração e comunica o inefável, o que as palavras não conseguem descrever. Não é apenas um modelo visual, mas o modelo de vida para os filhos de Deus, como está na carta aos romanos: "Os que Ele distinguiu de antemão, também os predestinou para serem conformes à imagem de Seu Filho, a fim de que este seja o Primogênito entre uma multidão de irmãos." Rm 8,29
    E mais uma vez perante os coríntios, o Santo de Tarso insiste no fato de que já nos foi dada a perfeita imagem de Deus Pai na Glória de Cristo: "... para os incrédulos, cujas inteligências o deus deste mundo obcecou a tal ponto que não percebem a luz do Evangelho, onde resplandece a Glória de Cristo, que é a imagem de Deus." 2 Cor 4,4
    Ele diz claramente aos colossenses: "Ele é a imagem de Deus invisível, o Primogênito de toda a Criação." Cl 1,15
    É o que dizem também os seguidores de sua tradição: "Esplendor da Glória de Deus e imagem do Seu ser, Ele sustenta o universo com o poder da Sua Palavra. Depois de ter realizado a purificação dos pecados, está sentado à direita da Majestade no mais alto dos Céus..." Hb 1,3
    Por isso o último Apóstolo cobra dos gálatas uma consciência digna da Pessoa de Jesus, Deus Encarnado, Cuja imagem já havia sido apresentada a eles: "Ó insensatos gálatas! Quem vos fascinou a vós, ante cujos olhos foi apresentada a imagem de Jesus Cristo crucificado?" Gl 3,1
    Assim também seus seguidores exortam ao culto ao Deus Vivo, em detrimento do antigo culto judeu. Se tínhamos imagens baseadas em um modelo, hoje prestamos culto ao próprio Deus em Pessoa, que esteve entre nós: Jesus. Se cultuávamos apenas sombras, hoje temos mais que sombras, mais que imagens, temos a própria Luz: "O culto que estes celebram é, aliás, apenas a imagem, sombra das realidades celestiais, como foi revelado a Moisés quando estava para construir o tabernáculo: 'Olha, foi-lhe dito, faze todas as coisas conforme o modelo que te foi mostrado no monte (Ex 25,40).'" Hb 8,5
     Para eles, e perceberam acertadamente, a própria Lei foi apenas uma imagem do que Jesus representaria: "A Lei, por ser apenas a sombra dos bens futuros, não sua expressão real, é de todo impotente para aperfeiçoar aqueles que assistem aos sacrifícios que se renovam indefinidamente cada ano." Hb 10,1
    Aliás, o próprio Templo de Jerusalém era uma representação dos Céus! Mas diante de Cristo, nós estamos diante da própria face de Deus: "Se os meros símbolos das realidades celestes exigiam uma tal purificação, necessário se tornava que as realidades mesmo fossem purificadas por sacrifícios ainda superiores. Eis por que Cristo entrou, não em santuário feito por mãos de homens, que fosse apenas figura do santuário verdadeiro, mas no próprio Céu, para agora Se apresentar intercessor Nosso ante a face de Deus." Hb 9,23-24 


    São João Damasceno, que viveu entre 675 e 749, escreveu belíssimas reflexões sobre esse tema.

    "A todos saciai com Vossa Glória!"