domingo, 1 de janeiro de 2017

Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus


    Segundo as Escrituras, Santa Isabel foi a primeira a afirmar Nossa Senhora como a Mãe de Deus. Foi por ocasião da visita que lhe fez Maria, logo após a Anunciação do Arcanjo Gabriel, quando o Espírito Santo demonstrou que estaria sempre com Ela: "Naqueles dias, Maria levantou-se e foi às pressas às montanhas, a uma cidade de Judá. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. Ora, apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança estremeceu no seu seio; e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. E exclamou em alta voz: 'Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o Fruto do teu ventre. Donde me vem esta honra de vir a mim a Mãe de Meu Senhor?'" Lc 1,39-43
    Sem dúvida, ao anunciar que ela conceberia do Espírito Santo, o Arcanjo São Gabriel não a saudaria dizendo que Deus 'está' ela, mas que Ele 'é' com ela: "No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem que se chamava José, da casa de Davi e o nome da virgem era Maria. Entrando, o anjo disse-lhe: 'Ave, cheia de Graça, o Senhor é contigo.'" Lc 1,26-28
    Mas, claro, quem primeiro soube que ela seria Mãe do Salvador foi o divino São José: "Eis como nasceu Jesus Cristo: Maria, Sua mãe, estava desposada com José. Antes de coabitarem, aconteceu que ela concebeu por virtude do Espírito Santo. José, seu esposo, que era homem de bem, não querendo difamá-la, resolveu rejeitá-la secretamente. Enquanto assim pensava, eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e disse-lhe: 'José, filho de Davi, não temas receber Maria por esposa, pois Aquele que nela foi concebido vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um Filho, a Quem porás o Nome de Jesus, porque Ele salvará o Seu povo de seus pecados.'" Mt 1,18-21
    O título de Mãe de Deus foi oficialmente reconhecido pela Igreja como o primeiro Dogma Mariano em 431, no terceiro Concílio Ecumênico, o primeiro realizado em Éfeso, justamente a cidade onde Nossa Senhora viveu seus últimos anos em companhia de São João Apóstolo, e onde ele foi bispo.
    Nesse Concílio, no qual brilhou para o mundo a grandiosa inspiração de São Cirilo de Alexandria, também foram decretadas as naturezas humana e divina de Jesus, que são inseparáveis. A esse respeito, o Evangelho de São João é determinante: "O Verbo fez-Se carne." Jo 1,14
    Foi, portanto, exclusivamente através da carne de Maria que Deus Se fez carne, pois, como disse o próprio São João referindo-se a Jesus, "... o Verbo era Deus." Jo 1,1
    Os opositores a esse Dogma diziam que Maria era apenas Mãe do Cristo, mas não Mãe de Deus. Como se pode negar, porém, por algum instante sequer, a divindade de Cristo? Como vimos acima, o Verbo é Deus, então Maria é Mãe do Verbo, logo, Mãe de Deus.
    E como Mãe de Deus, ela tornou-se também Mãe da Igreja, ou seja, Mãe dos seguidores de Jesus, como registrou São João as celestiais revelações que teve, no livro do Apocalipse: "Cheio de raiva por causa da Mulher, o Dragão começou a combater o resto dos filhos dela, aqueles que observam os Mandamentos de Deus e guardam o testemunho de Jesus." Ap 12,17
    Com efeito, desde Sua primeira Páscoa em vida pública Jesus havia dito a Nicodemos que para entrar no Céu o ser humano precisa nascer de novo: "Jesus replicou-lhe: 'Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer de novo não poderá ver o Reino de Deus.' Nicodemos perguntou-Lhe: 'Como pode um homem renascer, sendo velho? Porventura pode tornar a entrar no seio de sua mãe e nascer pela segunda vez?' Respondeu Jesus: 'Em verdade, em verdade te digo: quem não renascer da Água e do Espírito não poderá entrar no Reino de Deus. Aquele que nasceu da carne é carne, e aquele que nasceu do Espírito é espírito.'" Jo 3,3-6
    E em Seus últimos instantes na Cruz, Jesus determinou a São João Evangelista a essencial maternidade de Maria a todos os Seus discípulos: "Quando Jesus viu Sua mãe e perto dela o discípulo que amava, disse à Sua mãe: 'Mulher, eis aí teu filho.' Depois disse ao discípulo: 'Eis aí tua mãe.'" Jo 19,26-27a
    Ora, a mãe carnal de São João Evangelista era Salomé, e também assistia a crucificação: "Havia ali também algumas mulheres que de longe olhavam; tinham seguido Jesus desde a Galileia para servi-Lo. Entre elas achavam-se Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu." Mt 27,55-56
    E o único que, até então, havia nascido do Espírito Santo e de Maria era o próprio Jesus: "Maria perguntou ao anjo: 'Como se fará isso, pois não conheço homem?' Respondeu-lhe o anjo: 'O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a Sua sombra. Por isso o Ente Santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus." Lc 1,34-35
    Temos mais uma vez, portanto, que benditos são aqueles gerados pelo Espírito de Deus, como explicou Jesus, e no ventre 'espiritual' de Maria, como disse Santa Isabel: "E exclamou em alta voz: 'Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o Fruto do teu ventre.'" Lc 1,42
    De fato, foi exatamente isso que aconteceu à Igreja no Pentecostes, pois lá estava Nossa Mãe Celeste: "Voltaram eles então para Jerusalém do monte chamado das Oliveiras, que fica perto de Jerusalém, distante uma jornada de sábado. Tendo entrado no cenáculo, subiram ao quarto de cima, onde costumavam permanecer. Todos eles perseveravam unanimemente na oração, juntamente com as mulheres, entre elas Maria, Mãe de Jesus, e os irmãos d'Ele. Chegando o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente, veio do céu um ruído, como se soprasse um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam sentados. Apareceu-lhes então uma espécie de línguas de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Ficaram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar em línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem." Lc 1,12-13a.14;2,1-4
    E é o que se dá pelo Sacramento da Crisma, inicialmente ministrado pelos Apóstolos e desde então pelos Bispos da Igreja: "Os Apóstolos que se achavam em Jerusalém, tendo ouvido que a Samaria recebera a Palavra de Deus, enviaram-lhe Pedro e João. Estes, assim que chegaram, fizeram oração pelos novos fiéis, a fim de receberem o Espírito Santo, visto que não havia descido ainda sobre nenhum deles, mas tinham sido somente batizados em Nome do Senhor Jesus." At 8,14-16


    A Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus, pois, foi a primeira festa mariana da Igreja de Roma, celebrada desde o século IV, data do referido concílio. Com justiça, devemos a Nossa Senhora a Encarnação do Cristo. Foi Ela que aceitou de coração aberto submeter-se aos desígnios de Deus: "Eis aqui a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo a Sua Palavra." Lc 1,38
    Desígnios, aliás, nem sempre tão gloriosos, como previu o profeta no Templo de Jerusalém: "Simeão abençoou-Os e disse a Maria, Sua mãe: 'Eis que este Menino está destinado a ser uma causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser um sinal que provocará contradições, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações. E uma espada transpassará tua alma.'" Lc 2,34-35
    Porém, mesmo sabendo de todos os percalços, a maior realização de Maria é apresentar Seu filho, Nosso Salvador, ao mundo. E é isso o que Ela vem fazendo, desde o primeiro momento de Sua concepção, quando foi visitar Santa Isabel.
    Não foi ela que 'precipitou' o 'início' da vida pública de Jesus, instando-O a transformar água em vinho nas bodas de Caná? "Como viesse a faltar vinho, a mãe de Jesus disse-Lhe: 'Eles já não têm vinho.' Respondeu-lhe Jesus: 'Mulher, que há entre mim e ti? Minha hora ainda não chegou.' Disse, então, Sua mãe aos serventes: 'Fazei tudo que Ele vos disser.'" Jo 2,3-5
    Ora, aí refulgiu a Glória de Deus entre os homens: "Este foi o primeiro milagre de Jesus; realizou-o em Caná da Galileia. Manifestou a Sua Glória, e os Seus discípulos creram n'Ele." Jo 2,11
    Assim, segundo os Mandamentos da Igreja, a Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus é um 4 dos dias de preceito no Brasil, junto à celebração da Imaculada Conceição de Maria, do Natal de Jesus e do Corpus Christi. E abre o calendário da Igreja de Todos os Santos, iniciando o ano litúrgico ao celebrar o mais perfeito ser puramente humano que Deus fez gerar: Aquela que viveu toda a vida guardando com perfeição a divina semelhança, pois foi 'concebida sem pecado'.

    Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores!